Livros
Cinema - História
Teoria e representações sociais no cinema
de Jorge Nóvoa José D'Assunção Barros
O livro Cinema-História: teoria e representações sociais no cinema reúne artigos de pesquisadores que buscam, através das imagens em movimento, analisar a sociedade que as produziram. O cinema, quando surgiu, foi tratado como arte menor, diversão para iletrados. Entretanto, com o desenvolvimento desta forma de expressão, vários intelectuais passaram a freqüentar as salas cinematográficas e a considerar o cinema, ou pelo menos alguns filmes, como obras de arte. A partir dos anos 70 do século XX, o historiador francês Marc Ferro introduz, de forma definitiva, o cinema como fonte para a escrita da História. Tanto filmes de ficção, narrativas que abordam o tempo presente, passado ou até mesmo futuro, caso da ficção científica, quanto os cinema-documental e experimental, todos podem ser analisados e investigados pela História. Os textos que compõem este livro foram escritos por historiadores que trabalham a interação entre estas duas formas de apreensão, compreensão, análise e leitura da sociedade, aproximando a imaginação histórica da cinematográfica. Os três primeiros artigos trabalham a questão metodológica, procuram mostrar as “conexões e implicações estabelecidas nesta complexa convivência”. Os demais textos se voltam para o cinema nacional dos anos 60, 70, 80 e 90: CINEMA NOVO; exclusão social nos documentários brasileiros; a cultura popular nos filmes de Mazzaropi e a recente produção nacional são os temas.
SOBRE OS ORGANIZADORES
Jorge Nóvoa coordenou a Oficina Cinema-História da Universidade Federal da Bahia – UFBA – de 1994 a 2006 e é editor da revista O Olho da História (www.oolhodahistoria.ufba.br).
CURRÍCULO:
Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot, Mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia. Professor do Departamento de História e Pós-Graduação em História da UFBA. Coordenador da Oficina Cinema-História da Universidade Federal da UFBA (1994-2006) e editor da revista O Olho da História (www.oolhodahisoria.ufba.br)
José D´Assunção é Coordenador e Pesquisador do LIS – Laboratório da Imagem e do Som - da Universidade Severino Sombra em Vassouras.
CURRÍCULO:
Doutor em História Social pela UFF. Professor nos cursos de Graduação e Mestrado em História da universidade Severino Sombra. Autor dos livros O Campo da História. O Projeto de Pesquisa em História, Cidade e História, entre outros.
PREFÁCIO
Dorival Caymmi falou prá Oxum
com Silas tô em boa companhia.
O Céu abraça a terra,
deságua o Rio na Bahia ...
(Nação, João Bosco)
O livro que aqui se apresenta nasce de mais um dos sempre felizes encontros entre o Rio e a Bahia. O denominador comum, neste caso, são historiadores e cientistas sociais que refletem e pesquisam sobre o Cinema, e, mais especificamente ainda sobre a relação ‘Cinema-História’. Trata-se esta de uma relação complexa, que é muito mais do que as meras relações lineares que são entrevistas quando um destes pólos é abordado como superposto ao outro, ou mesmo anulando o outro, tal como ocorre quando a História propõe-se meramente a decifrar o Cinema, ou o Cinema almeja apenas representar a História (a “História do Cinema” ou o “a História no Cinema”).
“Cinema-História”, expressão conceitual cunhada por Marc Ferro nos anos sessenta e que será explicada (e defendida) por Jorge Nóvoa, além de permitir que se dê nome simultaneamente a uma problemática-objeto e a uma epistemologia específica, implica em uma relação que não admite a superposição de um termo pelo outro, mas sim a interação, a interpenetração, uma síntese de ambos. O “Cinema” da expressão Cinema-História já vem interpenetrado, antes mesmo que o outro termo surja, de tudo o que é “Histórico”; a “História” que completa a expressão já se mostra definitivamente incorporada dos ensinamentos e recursos de uma concepção cinematográfica de entender e dizer o mundo. Não por acaso se verá em alguns destes ensaios, que os historiadores imbuídos deste singular espírito epistemológico incorporam nos seus próprios modos narrativos e nos seus sistemas de análise algo mesmo da linguagem fílmica. Escrevem História, mas é como se também estivessem escrevendo algo de Cinema, permitindo-se à constante recriação de linguagem que é necessária ser inventada a cada novo instante para discorrer adequadamente sobre o Cinema.
Da mesma forma, é desnecessário dizer que a ‘imaginação histórica’ e a ‘imaginação cinematográfica’ têm muito em comum uma com outra – mais ainda: têm muito uma da outra dentro de si mesmas. Quantas vezes não encontraremos nos grandes mestres historiadores, inclusive naqueles que viveram em épocas muito anteriores ao Cinema, algo que, com alguma licença poética e historiográfica, poderíamos qualificar como uma ‘imaginação cinematográfica’? Além disto, quantas vezes, para períodos mais recuados ou que apresentem certas lacunas documentais, seria mesmo impossível tecer a História sem um pouco ou muito desta ‘imaginação cinematográfica’?
De igual maneira, quantas vezes os grandes mestres cineastas não puderam recriar ou fazer avançar a gama de recursos que enriquecem a linguagem e a imaginação fílmica com o que puderam precisamente aprender da História – como, por exemplo, com o método histórico de “viajar no tempo”? Em quantas oportunidades não encontraremos nos mestres cineastas, embora já realizadas com os recursos desta nova arte trazida pelos tempos contemporâneos, as interpenetrações e influências de uma arte mais antiga: a “arte” dos próprios historiadores, que sempre tiveram de descobrir no seu próprio ofício novos modos de lidar com o tempo e o espaço, de manipulá-los de modo criativo – expandindo ou reduzindo as dimensões de um e outro, comparando épocas e espacialidades, forçando acontecimentos e imagens do passado a dialogarem uns com os outros numa unidade construída pelo próprio historiador – quase como se fossem cineastas que buscassem a ‘montagem’ mais expressiva, mais intensa, mais significativa? Quantas vezes também os mestres cineastas não aprenderam dos historiadores esta arte de aprisionar os detalhes, descrevendo pé ante pé e passo ante passo as cenas de uma batalha, ou registrando na sua narrativa expressões e sentimentos que pareciam querer escapar de um diálogo entre personagens do passado? Mesmo da história analítica, “não-narrativa”, quantas vezes os cineastas não lograram aprender novos modos de contar um filme, de enredar ou desenredar uma trama?
A História, esta arte de dobrar seu próprio texto sobre si mesmo, fazendo de seu principal traço esse diálogo necessário que contrapõe o ‘discurso do historiador’ ao ‘discurso da fonte’ – portanto o discurso de um tempo/espaço ao discurso de outro tempo/espaço, quanto não terá ensinado ao próprio Cinema, que por sua vez retribuiu certamente à História com nova inspiração para propor renovados modos de redobrar a própria história? Cinema e História – ou melhor, “Cinema-História” – de um lado e de outro, definitivamente se interpenetram, informam-se mutuamente, renovam-se como linguagem e modo de imaginação.
Os Ensaios aqui apresentados, reunindo trabalhos de historiadores e cientistas sociais do Rio e da Bahia, foram agrupados segundo certo ordenamento lógico. Começamos com aqueles que desenvolvem mais centralmente alguns aspectos teórico-metodológicos, ou que discutem a relação Cinema-História de maneira mais geral. De um antigo texto de Jorge Nóvoa, sobre a própria discussão do conceito de ‘Cinema-História’, documento-marco importante para a difusão da teoria cinema-história e para a fundação da Oficina Cinema-História como seu primeiro laboratório no Brasil, passa-se a outro de José D’Assunção Barros no qual Cinema e História são contrapostos como identidades específicas e onde se busca mostrar que conexões e implicações se estabelecem nesta complexa convivência. O terceiro ensaio é um estudo de caso específico, no qual se discorre sobre o encontro de uma célebre historiadora com a realização de um roteiro cinematográfico, oportunidade ímpar para que Alberto Moby teça importantes reflexões acerca de alguns dos desdobramentos teórico-metodológicos derivados desta “delicada e fascinante relação entre o discurso historiográfico e o chamado filme histórico”, a partir da “investigação de Natalie Davis e sua participação na montagem do filme, embrião do trabalho de pesquisa que resultou no livro”. Desfechando o primeiro grupo de textos, teremos o ensaio de Sávio Tarso Pereira da Silva sobre as implicações se um gênero fílmico - o Documentário - mais especificamente as relacionadas à importante questão da representação e crítica política da Exclusão Social.
A seguir, mas sem uma separação formal em duas partes, adentramos os estudos que se dedicam a estudar mais especificamente o Cinema Brasileiro. Depois de um ensaio que abre um panorama mais geral do Cinema Brasileiro, discutindo as suas metamorfoses ao longo de um período mais amplo (Jorge Nóvoa), os seguintes foram alinhados de acordo com a referência cronológica progressiva, começando por Mazzaropi e daí passando a Glauber Rocha, ao Cinema Novo como um todo, ao Cinema nos anos 70, 80, 90. Soleni Fressato, Wolney Malafaia, Cristiane Nova, Antônio da Silva Camara e Marilene Rosa Nogueira da Silva são os autores de seis preciosos textos sobre o Cinema Brasileiro que nos farão compreender suas metamorfoses no decurso de sucessivos períodos e no confronto com diferentes contextos políticos e sociais. A coletânea encerra-se novamente com um ensaio de objetivos mais gerais, onde Victor Andrade de Melo discute as relações entre Cinema e Esporte, mas também centrando sua exemplificação principal no Brasil.
Todos os articulistas atuam como docentes. Os do Rio de Janeiro representam quatro universidades (USS, UERJ, UFRJ, FEUC) os professores da Bahia trazem a contribuição de pesquisadores e colaboradores da Oficina Cinema-História, sediada na UFBA, e responsável pelo periódico dedicado ao estudo do Cinema-História (a revista O Olho da História). Da Universidade Severino Sombra (USS, Vassouras), se tem dois ensaios, de um Núcleo de Pesquisa que elegeu como um de seus interesses centrais este mesmo tema e esta mesma postura epistemológica que se sintetiza através da expressão ‘Cinema-História’ que é o LIS - Laboratório da Imagem e do Som. Este se articula ao LESC - Laboratório de Estudos sobre Sociedades e Culturas com interesses mais amplos.
Ao fim do volume, todos os ensaístas estão apresentados na seção “Sobre os Autores”. Quanto aos ensaios, deixaremos que por si mesmos comecem a falar, como um bom filme que se descortina.
Jorge NÓVOA
José D’Assunção BARROS
2008
ISBN: 978856102212-9
Código: MDE22
Idioma: Português
Páginas: 328
Edição: 1ª edição
R$ 35,00
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